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O Futuro do Ensino no ISA

January 20, 2020

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Miguel Pedro Mourato

Professor Auxiliar

Presidente do Conselho Pedagógico do ISA

 

O ensino superior universitário português atravessa hoje enormes desafios aos quais o Instituto Superior de Agronomia (ISA) terá de responder. O ISA é uma das 18 escolas da Universidade de Lisboa apresentando cursos bastante específicos e com grande procura por parte dos alunos.

 

Recentemente, um artigo publicado por um professor aposentado do ISA (disponível aqui) lançou algumas nuvens negras sobre o atual ensino no ISA. Embora concorde com uma parte do diagnóstico feito, não partilho do pessimismo que perpassa o referido artigo e pretendo dar aqui uma outra visão do que se passa atualmente no ISA, principalmente ao nível do seu ensino.

 

O ensino universitário não pode ser desligado dos seus docentes, pois é na capacidade, conhecimento e empenho destes que se reflete a qualidade do ensino. Se por um lado o ISA apresenta um corpo docente altamente qualificado com todos os professores doutorados, por outro lado é também um corpo docente envelhecido, pois apresentava até há bem pouco tempo, uma das mais elevadas médias etárias da Universidade de Lisboa. Se isso pode ser uma enorme vantagem por termos docentes com elevada experiência, por outro lado poderá existir uma maior resistência à inovação e à renovação de métodos pedagógicos.

 

Não podemos esquecer a situação que o nosso país atravessou há cerca de 10 anos atrás com uma crise financeira e social cujos reflexos ainda hoje se fazem sentir a diversos níveis. De facto, a renovação de docentes foi muito reduzida durante um período de tempo demasiado elevado, as carreiras ficaram estagnadas e a carreira docentes foi sendo sucessivamente desvalorizada. Também a permanente confusão entre novas contratações e promoções[1] vieram causar um desânimo geral ao nível da academia portuguesa.

 

Do lado positivo assisti, nos últimos anos, a um esforço de contratações de novos docentes como há muito não se via no ISA. Têm entrado para os quadros do ISA pessoas novas, com excelentes currículos científicos, mas também com um enorme empenho na vertente pedagógica que, estou em crer, vão dinamizar muito o ensino no ISA nos próximos anos.

 

Uma das questões transversais à universidade é a dualidade entre a investigação e o ensino. Um docente universitário tem de fazer investigação científica e tem o dever de a divulgar para a comunidade. No entanto essa investigação não pode ser o nec plus ultra da atividade de um docente. A outra tarefa de um professor universitário é justamente ser… professor! Durante demasiados anos foi dada primazia à vertente de investigação científica, talvez por esta ser mais fácil de quantificar através das métricas que entraram hoje no nosso vocabulário (número de publicações, número de citações, fatores de impacto, índice h, etc.). De facto, é muito mais difícil quantificar o que é um bom professor e qual o impacto (positivo) que pode ter num aluno, é algo que o diferencia perante o aluno mas a que é difícil aplicar métricas.

 

Enquanto presidente do Conselho Pedagógico do ISA tenho-me batido pela importância dos inquéritos pedagógicos que são realizados pelos alunos, onde eles avaliam quantitativamente os docentes e as respetivas UCs.

 

Obviamente que os resultados dos inquéritos não revelam tudo e são afetados por numerosos fatores que não há aqui espaço para detalhar, mas são, a meu ver, um contributo importante para a valorização da vertente pedagógica no ensino. Vejo com agrado que hoje no ISA há uma muito maior preocupação com as questões pedagógicas e com a atualização dos docentes nas técnicas de ensino. O tal ensino magistral e expositivo, que ainda abunda noutras universidades e também no ISA, tem vindo a ser progressivamente alterado por técnicas de ensino mais ativas onde o papel do aluno é muito mais importante deixando de ser um simples recipiente passivo de informação mas tornando-se um elemento ativo na sua aprendizagem. Tem havido por parte dos docentes do ISA, com destaque para os mais novos, o empenho na formação em novas técnicas ativas de ensino que podem contribuir muito para alcançar os objetivos que nos propomos, independentemente de se utilizarem ou não powerpoints. Existem hoje numerosas ferramentas informáticas (muitas, gratuitas) que possibilitam uma interação muito maior dos alunos com os docentes.

 

Note-se que considero que continua a haver espaço para aulas expositivas, mas devidamente adequadas ao tipo de alunos e de matérias existentes em cada disciplina (ou Unidade Curricular, como agora se chama) e com uma interação diferente com os alunos. É necessário valorizar os estudantes e potenciar as suas capacidades, pelo que os sistemas de avaliação devem ter isso em consideração, tendo um foco muito maior na aprendizagem. No futuro o “chumbo” deveria ser algo de extraordinário.

 

Os alunos de hoje são muito diferentes dos alunos do passado, tal como o são os desafios que enfrentam, e só adequando o ensino a esta nova realidade conseguiremos alcançar o objetivo de garantirmos profissionais de sucesso qualquer que seja a profissão que escolham.

 

O ISA é uma escola pequena, o que traz vantagens e desvantagens, cabendo a todos os membros da comunidade ISA potenciar as primeiras e atenuar as segundas. O facto de ser uma escola pequena faz com que os alunos não sejam números, mas sim pessoas. Este ensino de proximidade é uma das vantagens que os alunos do ISA podem aproveitar para um maior sucesso na sua aprendizagem. As universidades não podem mais ser locais de fabrico em massa de alunos com um diploma, têm de ser verdadeiros centros de formação avançada, onde os alunos são confrontados com os desafios que trespassam a sociedade atual e onde deverá ser fornecida uma formação técnica e científica sólida para os preparar para os desafios do futuro, dos quais apenas alguns podemos atualmente antever. Ao mesmo tempo, a vertente ética e as componentes de humanidades e ciências sociais não podem nunca ser esquecidas, pois a formação universitária não pode hoje ser vista apenas como um repositório de conhecimento científico e tecnológico, mas tem de ser alicerçada na dimensão humana desse conhecimento.

 

Se a componente profissionalizante do ensino superior é importante, não podemos esquecer que a universidade é, por excelência, o local onde se cria conhecimento pelo que toda a sua atividade deve ter por base a ligação à produção do conhecimento e ao progresso científico, em estreita ligação com todas as vertentes de investigação fundamental e aplicada. Este é um equilíbrio que não é fácil de alcançar até pelas visões muito diferentes que existem sobre o seu peso relativo.

 

Considero que o ensino no ISA de hoje está em mudança e consegue transmitir os conhecimentos fundamentais para que os futuros engenheiros, biólogos e arquitetos paisagistas consigam singrar com sucesso na profissão que escolherem. Sem dúvida que há ainda muito a fazer, num ensino que se pretende um processo dinâmico e em permanente evolução, mas estou em crer que o ISA está no caminho certo para se manter como escola de referência das suas áreas de formação. O sucesso dos nossos graduados são o melhor testemunho desse caminho.

 

 

 

[1] No ensino superior universitário português há 3 categorias de professor: auxiliar, associado e catedrático. Segundo a atual legislação não há possibilidade de promover um docente de uma categoria para outra superior, terá de ser aberto um concurso internacional onde poderão concorrer pessoas de “dentro” (sendo promovidos) ou pessoas de “fora”, o que equivale a uma nova contratação. Este sistema apresenta enormes perversidades que não cabe neste artigo serem analisadas.

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