Quais os desafios da produção hortícola, em Portugal?


Francisco Estevam - Eng. Agronómo

Falar de horticultura torna-se difícil, porque estamos a falar de diferentes tipos de produção, culturas ou regiões, inúmeras estruturas ou instalações e de um número muito elevado de agricultores. Mas uma coisa é certa, a horticultura (e a agricultura em geral) já não é, no nosso país, uma atividade de produção de alimentos para autoconsumo, com recurso a mão-de-obra familiar e a estruturas rudimentares. É preciso entender que a horticultura é uma atividade económica que tem a finalidade de “trazer dinheiro” a todos os seus intervenientes e que teve um grande desenvolvimento económico, tecnológico e científico nos últimos anos.

No entanto, o principal desafio para os produtores hortícolas é conseguir produzir com um custo inferior ao preço de venda. Para se ter uma ideia, hoje é pedido que se produza um legume/fruta com caraterísticas muito específicas (cor, tamanho, calibre, etc.), com regras muito apertadas (sejam do consumidor, seja da legislação) e cumprindo todas as normas da sustentabilidade ambiental. Para além disso, nem sempre as exigências dos vários intervenientes são compatíveis. A título de exemplo, hoje é pedido aos produtores que intercalem de produtos químicos nas aplicações fitossanitárias, evitando assim que pragas/doenças ganhem resistências e até mesmo para que não se ultrapassem os limites máximos de resíduos. Só que depois a lista de produtos disponíveis é cada vez mais reduzida.Não será isto um contrassenso?

Mas claro que a evolução do setor e o desenvolvimento de novas técnicas, produtos ou até mesmo teorias vêm ajudar a que se cumpra todas essas exigências e normas. No entanto, tudo isto tem um custo e é necessário que exista retorno. Não podemos ter um produtor a cumprir todas as regras e depois não ter uma valorização adequada do seu produto.

Na minha opinião, todos os intervenientes da cadeia têm muito para melhorar. O produtor tem quatro grandes aspetos que deverá trabalhar. Em primeiro lugar, ter um produto com qualidade máxima e cumprindo aquilo que o consumidor (o seu cliente!) pretende. Em segundo lugar, ter a maior rentabilidade por unidade de área, ou seja, trabalhar para conseguir ter a maior produção possível e assim diluir os custos na quantidade produzida. Aspeto esse, o custo de produção, o terceiro fator importante da produção, onde o horticultor deverá trabalhar para conseguir reduzi-lo ao máximo. No entanto, produzir com menor custo não é recorrer a fatores de produção mais baratos por unidade, mas sim recorrer àqueles que lhe saem mais barato. Por isso, uma análise de custos de produção deve ter sempre em conta a eficácia e a eficiência dos seus fatores de produção, não podendo apenas ser feita uma análise do preço de compra dos mesmos.

Por último, a questão do ambiente e da parte social deverá sempre ser tida em conta. Aliás, o futuro da agricultura está diretamente interligado com o futuro das questões relacionadas com a natureza. Porém, é importante que não nos deixemos ir em teorias de “Facebook”, onde liga a agricultura como uma das maiores causas de insustentabilidade ambiental. Tem de haver uma preocupação por parte da produção na defesa do ambiente, mas também uma noção real, da sociedade, sobre os impactos causados por esta atividade. E mais, só existe sustentabilidade ambiental, nas explorações agrícolas, se houver sustentabilidade económica das mesmas, ou seja, temos de adotar ferramentas e técnicas de produção em prol do ambiente e da sociedade, mas as mesmas têm de ter um retorno para o gestor hortícola

Contudo, os desafios não podem ficar apenas para os produtores!

O mercado hortícola trabalhou, trabalha e continuará a trabalhar como um mercado bolsista, com base na procura e na oferta, em outras palavras, tem de se trabalhar sem saber o preço de venda (na maioria dos casos). Por isso é importante que a cadeia faça de tudo para valorizar o produto hortícola, tornando-o rentável para as explorações agrícolas e diminuindo o elevado risco da produção. Isto implica que, hoje em dia, temos de nos preocupar com a sustentabilidade ambiental no mundo e com a sustentabilidade económica das empresas hortícolas. Para isso acontecer é necessário que haja um maior planeamento e uma maior organização da cadeia, sendo essencial o investimento na formação, na ciência, na legislação e na valorização económica do produto hortícola. Com um trabalho conjunto dos vários intervenientes é possível que o retorno (de todos!) seja superior ao custo e se ultrapassem os desafios atuais da horticultura em Portugal.


Francisco Estevam,

Diretor Técnico e Comercial de Viveiros, naCampoesteS.A